O árbitro portuense Paulo Costa, que em Dezembro último, terminou a sua carreira de árbitro internacional, aceitou o desafio de responder a algumas perguntas dos leitores do Arbifute.

- Nome Completo: Paulo Manuel Gomes Costa -
Se fosse hoje o dia em que iniciou o curso de árbitro, voltaria a fazê-lo? Paulo Costa: Indiscutivelmente! Porque a arbitragem permitiu-me um percurso desportivo de grandes experiências e de grande contentamento.
O que mudava na estrutura da FPF, nomeadamente na arbitragem, para uma
melhor captação de árbitros, por exemplo para futuros internacionais?
Paulo Costa: Aquilo que é desejável neste particular, é um aumento quantitativo e qualitativo da formação dos jovens árbitros, onde se deve incluir uma triagem de valores com potencial à partida, para “arbitro internacional”, começando na criação de um perfil para esse fim. E a esse grupo dar um acompanhamento especifico.

- Data de Nascimento: 02/12/1964 (45 anos) -
Paulo como foi o 1º jogo internacional? E o último? (H Cardoso)
Paulo Costa: Foi um pouco diferente do habitual, pois na UEFA começa-se por arbitrar jogos de camadas jovens e no meu caso concreto, foi um jogo da fase final do campeonato da Europa de Sub 16 na Republica Checa.
E o último jogo foi em Roma, um jogo entre Roma e os belgas do Gent, curiosamente numa das cidades que mais aprecio na Europa.
Qual considera o melhor jogo? (André Rodrigues)
Paulo Costa: É sempre difícil escolher o melhor jogo, mas escolheria aqueles que mais me marcaram, ou pela dificuldade ou pela singularidade. E em Portugal seleccionava os derbies entre o Sporting, o Benfica e o Porto e as finais da Taça de Portugal. E no estrangeiro destacaria, o meu primeiro jogo da Liga dos Campeões, arbitrar a selecção inglesa em casa, arbitrar a final da Taça Intertoto, e por ultimo, um derby em Teerão com 120.000 pessoas.
Como começou a sua carreira? teve momentos difíceis? ou foi sempre a subir?
(David Demetrio)
Paulo Costa: Comecei aos 19 anos, arbitrando nos distritais, 3 a 5 jogos por fim de semana. E como todos, tive alguns jogos muito difíceis, trabalhosos e de risco. Mas de todos fiz um processo de aprendizagem e nunca abdiquei da responsabilidade de árbitro, independentemente da idade e das óbvias solicitações da juventude.
Quanto à ascensão, tive uma longa paragem de 3 anos na 2ª divisão nacional, que se tornou benéfica, e mesmo assim cheguei à 1ª divisão com 27 anos, que ao tempo era algo quase inédito.

- Profissão: Gestor de empresas -
Qual foi a sua sensação no dia que recebeu as insígnias da FIFA? (António
Oliveira)
Paulo Costa: Mais que o dia da cerimonia, recordo o dia da noticia, em que tive uma sensação de enorme alegria logo seguida de um sentimento de nostalgia, pois senti que tinha chegado á ultima etapa da minha carreira.
Qual foi o momento que marcou a sua carreira? (António Oliveira)
Paulo Costa: É claramente o “dia a dia” que marca a carreira das pessoas, seja em que actividade for, embora as questões mediáticas se tornem mais marcantes sendo certo que raramente sejam as mais importantes. E no meu caso, as minhas posições politico-desportivas na defesa da arbitragem estarão eternamente ligadas ao meu currículo de árbitro. O que ao longo do tempo me tem custado algumas perseguições jornalísticas, mas por outro lado o respeito de muita gente, e principalmente a admiração dos árbitros, pois eles sabem que o meu percurso sempre foi assente no trabalho para a nossa comunidade, entre Núcleos, Apaf e comissões representativas de árbitros.

- Árbitro desde: 1985/1986 -
Vai terminar a carreira de Árbitro já no final de Dezembro, ou seja quando
termina como Internacional e saindo pela porta grande, ou vai continuar até
ao final da época? (Manuel Pereira)
Paulo Costa: Contrariando muitas opiniões, a esmagadora maioria dos árbitros move-se por paixão, e por isso mesmo, o que eu desejo é arbitrar, treinar, sentir a adrenalina dos jogos…
E embora compreenda e respeite todas as opções de gestão de carreira, gostaria de lembrar que os últimos grandes árbitros que terminaram a carreira fizeram – no após os 45 anos. Mesmo o Colina, só porque assinou um contrato milionário com a Opel, não pode prosseguir a carreira após os 45 anos.

- Associação: AF Porto -
Acredita na possibilidade de Olegário Benquerença estar no Mundial 2010?
Paulo Costa: O Olegário tem feito uma carreira internacional em crescendo e de enorme qualidade, e por isso estou perfeitamente convicto da sua selecção para o mundial, apenas um muito improvável lobby político o poderá retirar do grupo dos eleitos.
Quem irá ser o próximo árbitro internacional? (André Rodrigues)
Paulo Costa: A única certeza que tenho, é que regulamentarmente, o nome sairá em primeira linha de 2 possibilidades: Vasco Santos e João Capela.
Tem algum episódio caricato? (Tiago Teixeira)
Paulo Costa: Recentemente tive um episódio super engraçado, num jogo da Liga Europa, portanto com uma equipa de 6 árbitros. Ainda no túnel, já estávamos a inspeccionar as equipas para o inicio do jogo, quando para nossa surpresa começamos, através do auricular, a ouvir uma voz aos berros a pedir ajuda para lhe abrirem a porta. O que se tinha passado?
Como a equipa era maior que o habitual, fomos saindo para o corredor de forma mais espaçada, enquanto isso, o 4º árbitro fechou a porta esquecendo-se que um dos assistentes estava na casa de banho. Quando esse árbitro-assistente se preparava para sair do balneário, deparou-se sozinho e com a porta fechada…
Escusado será dizer, que foi a gargalhada geral com os jogares a olharem para nós sem saberem o porquê para tanta graça.

Paulo Costa: Em tese não concordo. E não é por acaso que vários países como a Itália, Inglaterra, Holanda, etc; permitem que os árbitros continuem a arbitrar para além dos 45 anos. E com o estatuto profissional, a legislação comunitária proíbe qualquer tipo de limite de idade para profissionais, apenas a obrigatoriedade de cumprir os requisitos físicos mundialmente regulamentados. Aliás, esta jurisprudência legal teve inicio com os árbitros profissionais holandeses.
Qual a equipa de futebol para si que pratica melhor futebol esta época?
Paulo Costa: Juntando as exibições a nível nacional e internacional, as oportunidades de golo e o número de golos marcados, parece-me evidente que a escolha recai no Benfica.

Qual o melhor clube a nível de fair-play? (Tiago Teixeira)
Paulo Costa: Pelo exemplo dado durante muitas épocas consecutivas, o Estrela da Amadora merece um distinto destaque por parte dos árbitros. Pois, ganhasse ou perdesse, os seus dirigentes sempre tiveram um comportamento de grande elevação, e acho que se deram bem com essa atitude de grande desportivismo. Isto contrastando com o mau perder de alguns, que no mínimo, no final do jogo, ficam com uma cara de mau e um olhar altivo e ameaçador, que mais parece que alguém lhes deve dinheiro.
Tem projectos para fazer parte da estrutura da arbitragem da AF Porto?
(Paulo Pinto)
Paulo Costa: Não. Sobre a AFP, apenas desejo que ela seja a maior associação do país. Bem mais em termos qualitativos que quantitativos. E por isso gostava que ela tivesse um “Campus Desportivo”, onde houvesse espaço para um centro de trabalho para as selecções jovens, um centro de arbitragem, um centro de pesquisa e desenvolvimento que aproveitasse os treinadores e jogadores sem colocação. E neste particular, aliava a acção social ao desenvolvimento do futebol.
Se sim, é na parte na direcção ou na formação? (Paulo Pinto)
Paulo Costa: Importa referir que um ex-arbitro não pode ter a perspectiva redutora de no futebol, obrigatoriamente ficar ligado à arbitragem, pois há imensas áreas onde a experiencia dos árbitros pode ser uma mais valia para a organização das estruturas do futebol. E no meu caso, eu gosto imenso de arbitragem, mas gosto mais do futebol.
Não foi possível publicar a entrevista com o timming que desejaria, mas desde já obrigado ao Paulo pela disponibilidade que teve em fazê-lo, e um grande bem haja por ter aceite esta entrevista, desejando-lhe um excelente fim de época, e que o fim de uma carreira.. permita o inicio de outra.